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sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Fome no Mundo

Pio Penna Filho*

A fome é um dos grandes dramas da humanidade. Infelizmente, apesar de hoje produzirmos alimentos de sobra para todos os humanos, quase um bilhão de pessoas passa fome ao redor do mundo. Trata-se de uma calamidade global, movida por muita desumanidade e descaso para com o outro.  
Desde meados do século XX, com a revolução verde que levou ao aumento da produção e da produtividade na agricultura, atingimos o patamar de segurança alimentar, no sentido de que, pela primeira vez, a produção agrícola passou a ser suficiente para a alimentação de todos os humanos.
Entretanto, a capacidade de produzir alimentos em abundância não levou ao fim da fome e da subnutrição. O que era para ser a segurança alimentar para toda a humanidade não passou de uma vaga possibilidade. O que vimos foi, por incrível que pareça, o aumento da insegurança alimentar em várias regiões, sobretudo na África e em partes da Ásia.
A fome está diretamente relacionada com a pobreza. O desemprego e a baixa remuneração de milhões de pessoas ao redor do mundo levam à privação alimentar. Ou seja, existem alimentos, mas pecamos na distribuição e no acesso a eles. Muitas pessoas simplesmente não têm renda suficiente para se alimentar todos os dias.
Esse enorme contingente populacional entra num ciclo vicioso, onde a pobreza leva à fome que, por sua vez, leva a uma situação de penúria que em muitos casos compromete o futuro ou a própria vida dessas pessoas e de seus descendentes.
É um drama em larga proporção que deveria incomodar a consciência humana, se é que ela existe. Embora existam organismos internacionais e agências nacionais voltadas para o combate à fome e à pobreza, o problema persiste em quase todos os países.
Naturalmente são os países mais pobres e desiguais aqueles que tem maiores contingentes de esfomeados. Mas a fome está presente também em países ricos e desenvolvidos, porque neles também existem pobres.
A solução para esse problema é complexa. Passa pela revisão de políticas públicas nacionais e internacionais voltadas para a supressão da fome e de um disciplinamento da grande especulação financeira que existe em torno da produção agrícola. Não é possível que em pleno século XXI sejamos incapazes de rever a política de acesso a alimentos ao redor do mundo.
É imperativo que a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) exerça um papel mais ativo no plano global e que seja respeitada e apoiada pela comunidade internacional. Embora a FAO seja de grande importância para milhares e milhares de pessoas ao redor do mundo, o suporte que recebe da comunidade internacional ainda é insuficiente para fazer frente ao grande desafio de eliminar a fome do planeta.
Os historiadores do futuro, quando olharem para trás, para a nossa época, certamente notarão esse terrível paradoxo do qual a maior parte de nós é insensível. Temos alimentos para todos, mas negamos o direito à alimentação, ou seja, à vida, para quase um bilhão de pessoas!










* Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Refugiados e Imigrantes

Pio Penna Filho*

As últimas imagens de pessoas desesperadas tentando chegar ao espaço europeu tem chamado a atenção internacional para o fenômeno dos deslocamentos humanos recentes. São cenas chocantes de milhares de pessoas que tentam a todo o custo entrar na Europa em busca de melhores condições de vida, mesmo que isso lhes custe a própria vida.
Essas pessoas se dividem, basicamente, em dois grupos. Há o grupo dos refugiados, que geralmente saem de países que passam por conflitos e guerras civis, como são os casos da Síria e do Afeganistão, e o grupo dos imigrantes, sendo que este último reúne pessoas que desejam uma oportunidade em algum país estável e desenvolvido.
A relativa proximidade geográfica, o nível de desenvolvimento e a possibilidade de um recomeço de vida são os principais atrativos identificados por imigrantes e refugiados que buscam a Europa. Lá parece ser, para muitos, uma terra promissora, uma espécie de novo “eldorado”.
O problema é que a Europa, assim como qualquer outra região do mundo, não está preparada para receber um fluxo tão grande de pessoas num período tão curto de tempo. Em termos financeiros os custos para manter uma população nova, ainda em fase de estabelecimento e adaptação, são muito elevados.
Mas há também o problema do choque cultural. A maioria dos refugiados e imigrantes são provenientes de culturas muito distintas das europeias e o choque é inevitável, sobretudo com problemas de discriminação e preconceito. Assim, a humilhação se associa à vulnerabilidade dessas pessoas quando elas conseguem chegar à Europa.
Não há solução a curto prazo para esse problema. Não adianta os europeus tentarem “fechar” as suas fronteiras com arame farpado, com muros, com dispositivos militares e coisas afins. A pressão continuará e a tendência é que esses fluxos aumentem, pelo menos ainda por um tempo.
A única saída, e essa demanda tempo, é tentar levar estabilidade política e algum desenvolvimento econômico para as principais regiões de onde partem esses imigrantes e refugiados. Enquanto isso não mudar, todas as políticas de contenção do problema estarão fadadas ao insucesso. E isso, como se sabe, não acontece e nem acontecerá da noite para o dia.
Há muita desigualdade no mundo contemporâneo. Vivemos numa era globalizada, em que o mundo parece ter encolhido, diminuído, e se tornado mais interdependente e desigual, e isso coloca em evidência o grande contraste entre os ricos e os pobres. A busca por melhores condições de vida é legítima e natural para o ser humano. O mundo, portanto, não pode fechar os olhos deliberadamente para o sofrimento de tanta gente.
Esse problema não é apenas da Europa, é bom que se diga. É um problema global e que requer, portanto, uma resposta global.

















* Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com

As Bombas de Hiroshima e Nagasaki

Pio Penna Filho*

Segunda-feira, 6 de agosto de 1945, pouco depois das oito horas da manhã os americanos lançaram uma bomba atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima. No dia 09 do mesmo mês, porém um pouco mais tarde, mas ainda pela manhã, foi a vez da cidade de Nagasaki. Milhares de pessoas morreram instantaneamente. Outras milhares morreram mais lentamente, até mesmo muitos anos após os eventos dos dias 06 e 09 de agosto.
Os Estados Unidos cometeram um verdadeiro crime contra a humanidade no Japão. Os lançamentos das bombas atômicas, uma de urânio e outra de plutônio, poderiam tranquilamente terem sido evitados. Mas os americanos queriam mostrar ao mundo a sua nova e formidável arma. Queriam também castigar o Japão pelo ataque à base naval de Pearl Harbor, que desencadeou a guerra entre os dois países.
A decisão de lançar as bombas não foi baseada apenas levando em conta os objetivos militares norte-americanos. Ela teve, na verdade, um forte componente político, que era o de mostrar aos soviéticos e ao mundo quão poderoso eram os Estados Unidos ao final da Segunda Guerra Mundial.
O presidente dos Estados Unidos, assim como os cientistas e as pessoas diretamente envolvidas no programa nuclear, estavam plenamente cientes que haviam construído uma arma com potencial nunca antes visto e que o seu impacto seria apavorante. Aliás, a escolha dos alvos nos revela até onde pode ir a maldade humana, especialmente em tempos de guerra.
Hiroshima foi uma cidade relativamente tranquila durante toda a guerra. Praticamente não sofreu ataques aéreos convencionais norte-americanos e sua população estava um tanto despreocupada com a possibilidade de se tornar alvo direto de um ataque. Daí é possível imaginar a surpresa de sua população quando a bomba explodiu, ainda mais porque ninguém conseguiu compreender que arma era aquela que havia produzido um efeito tão devastador e estranho.
A ideia era justamente essa: usar a cidade japonesa de Hiroshima como um balão de ensaio para verificar o resultado de um ataque nuclear real. O que aconteceria com a infraestrutura da cidade? Qual seria a real dimensão do poder destrutivo da bomba? Quantas pessoas ela poderia matar de uma só vez? Essas e outras dúvidas precisavam ser respondidas com uma experiência concreta. Quanto mais destrutiva, quanto mais pessoas mortas, melhor para a propaganda norte-americana.
Não satisfeitos com o ataque a Hiroshima, os Estados Unidos atacaram Nagasaki com um novo artefato nuclear. Aí o crime se materializa de vez, porque as notícias sobre os horrores ocorridos em Hiroshima já haviam se espalhado e os Estados Unidos já tinham uma ideia mais precisa sobre os efeitos da bomba. Caso os japoneses não se rendessem, muito provavelmente outra bomba seria lançada. Talvez até mais de uma.
Hoje, os arsenais nucleares são muito mais vastos e as bombas e ogivas muito mais poderosas do que aquelas lançadas no Japão em 1945. Norte-americanos, russos, chineses, franceses, ingleses, paquistaneses, indianos, israelenses e norte-coreanos possuem sofisticadas bombas atômicas.
É até compreensível que tenhamos chegado ao ponto que chegamos, sobretudo porque a humanidade é movida, em grande medida, por sentimentos nada nobres, como bem nos ensina a História. A lição que fica é que, infelizmente, não se deve duvidar, de jeito nenhum, da maldade humana. Caso os Estados Unidos tivessem perdido essa guerra, certamente os seus dirigentes seriam julgados e condenados por crimes contra a humanidade.









* Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB),  Pesquisador do CNPq e do Centro de Estudos Estratégicos do Exército Brasileiro (CEEEX). E-mail: piopenna@gmail.com

Paraguai: guerra injusta?

Pio Penna Filho*

O Papa Francisco, em recente visita ao Paraguai, afirmou que a guerra do Paraguai foi injusta. Sem dúvida, a guerra do Paraguai foi injusta, sobretudo com o povo paraguaio. Mas qual guerra pode ser considerada justa? O que é necessário para definir uma guerra como justa? Talvez o Papa tenha falado isso porque é um humanista e, por princípio, contrário a todas as formas de guerra.
É muito difícil afirmar que uma guerra é justa. Geralmente é aceito que um país tem o direito de se defender quando sofre uma agressão. Se for esse o caso para definir que uma guerra é “justa”, pelo menos em seu ponto de partida, então a guerra do Paraguai começou a partir de um ato de justiça, porque afinal o Brasil foi atacado por tropas paraguaias que, além de invadirem o território do país, assassinaram cidadãos brasileiros e saquearam propriedades por onde passaram.
Temos que parar com a vitimização do Paraguai em decorrência da guerra do século XIX. É bobagem e proselitismo barato dizer que o Brasil foi o malvado e o Paraguai, a vítima; o país bonzinho destruído pelo poderoso Império brasileiro.
Os paraguaios seguiram até o fim o seu líder supremo, o marechal Solano López, que arriscou a existência de sua pátria em nome de um objetivo político impossível de ser alcançado, que era impor os interesses do seu país ao Brasil por meio de uma medida de força. Aliás, a reabilitação histórica de Solano López é, no fundo, um despropósito, porque afinal foi ele o artífice de sua própria queda e da ruína do seu país. É esse tipo de líder ou herói que os paraguaios querem cultuar?
López teve o destino que mereceu. Suas próprias ações levaram a isso. Acusar o Imperador e os militares brasileiros de terem conduzido uma guerra injusta não faz o menor sentido, a não ser na perspectiva da vitimização de um país que foi vítima do seu próprio líder supremo. Não devemos, como brasileiros, portanto, ceder a esse canto da sereia do revisionismo histórico sem fundamento nos fatos.
É preciso, portanto, colocar a questão em perspectiva. Nesse caso, não há como mudar a História. O que aconteceu foi que o Paraguai, numa atitude insana, atacou o Brasil e a Argentina e pagou para ver. O que queria Solano López? Que o Império brasileiro recuasse e aceitasse a vontade política do Paraguai, intimidado por uma agressão militar? Ora, isso simplesmente não existe.
O Brasil exerceu o seu direito e, diria mesmo, sua obrigação de revide a uma agressão externa. E é sempre bom lembrar que quem se preparou para a guerra foi o Paraguai. Nem o Brasil e nem a Argentina pensavam em guerrear com o Paraguai, por isso o prolongamento do conflito, uma vez que os seus exércitos estavam despreparados para a guerra.
É verdade que a guerra atingiu um patamar absurdo de violência e que quem pagou o preço mais caro por ela foi o povo paraguaio. Mas qual guerra não é violenta? A violência é inerente à guerra. Acusações de crueldade em guerras são redundantes e, por vezes, são usadas como forma de denegrir a imagem de um dos atores por motivos políticos. Tão covarde quanto matar crianças em combate é colocá-las em combate, isso apenas para ilustrar um dos episódios mais criticados da guerra.
Portanto, a guerra do Paraguai foi injusta como todas as guerras são injustas. É preciso parar com esse proselitismo barato de que o Paraguai é o que é por causa do Brasil.




* Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB),  Pesquisador do CNPq e do Centro de Estudos Estratégicos do Exército Brasileiro (CEEEX). E-mail: piopenna@gmail.com 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Infâmia e Massacre em Gaza

Pio Penna Filho*

As cenas são fortes: casas e prédios destruídos, hospitais e ambulâncias atacados, homens, mulheres, idosos e crianças mortos por um dos exércitos mais bem equipados e treinados do mundo. Violações sistemáticas e indiscutíveis dos mais elementares direitos humanos estão ocorrendo nesse momento na Palestina perpetrados pelo governo de Israel, inclusive com suspeita de crimes de guerra.
A guerra da palestina, ou melhor, o massacre na palestina de julho de 2014 entrará para a galeria da história como mais uma das brutais ações promovidas pela estupidez humana.
Não bastasse a derrubada do avião da Malaysia Air com seus quase trezentos mortos na semana passada, sem contar a própria violência da guerra civil na Ucrânia e em tantas outras partes do mundo (vale lembrar a quase já esquecida Síria), assistimos agora ao brutal e indiscriminado massacre de palestinos na Faixa de Gaza.
Israel insiste em alegar que a culpa da guerra, do massacre, é exclusivamente do movimento Hamas. Está apenas parcialmente correto. Israel, por seus atos, resolveu dividir a infâmia com o Hamas. Ambos estão errados. Ambos devem ser diretamente responsabilizados pela violação do direitos humanos e pelo assassinato de centenas de pessoas.
O Hamas não deseja a paz com Israel. Suas ações indicam que o grupo insiste na equivocada ideia da impossibilidade de que palestinos e israelenses possam conviver em áreas contíguas. Insiste em desafiar militarmente um Estado poderoso. Insiste em lançar foguetes e espalhar o medo e o terror nas cidades israelenses.
Israel, por sua vez, faz da vida de milhares de palestinos uma verdadeira tormenta. No dia a dia prevalece a humilhação com os procedimentos de “segurança” impostos aos palestinos que, sem alternativa econômica, são obrigados a procurar trabalho em Israel. Durante os conflitos, como o atual, as Forças Armadas de Israel atacam alvos quase indiscriminadamente, matando ou ferindo centenas de civis.
No plano externo, a ONU tem feito pouco para encaminhar o problema entre israelenses e palestinos. Mas, no fundo, todos sabemos como a ONU funciona e, principalmente, suas limitações. O problema, portanto, não é exatamente a ONU, mas sim o comportamento dos Estados Unidos e, eventualmente, dos seus aliados europeus.
É interessante observar que todas as iniciativas internacionais para solucionar o conflito falharam. Algumas provocaram alguns avanços, mas nada a ponto de resolver o problema da Palestina. Portanto, enquanto não ocorrer uma mudança no comportamento dos atores internacionais e regionais mais importantes, pouca esperança restará para o povo palestino.
E é exatamente isso que alimenta movimentos radicais como o Hamas. A falta de perspectiva é tão grande para a comunidade palestina que alguns dos seus membros acabam acreditando que, de fato, a única saída é por meio da violência.
Infelizmente não há nenhum cenário positivo no curto e médio prazos para a questão palestina. O que estamos assistindo hoje tem tudo para acontecer de novo e de novo, só para nos lembrar que a intransigência política, o egoísmo e a estupidez humanas estão muito longe de terminar.





* Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com