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segunda-feira, 15 de maio de 2017
sexta-feira, 12 de maio de 2017
A Fome no Mundo
Pio Penna Filho*
A fome é um dos grandes dramas da humanidade. Infelizmente, apesar de
hoje produzirmos alimentos de sobra para todos os humanos, quase um bilhão de
pessoas passa fome ao redor do mundo. Trata-se de uma calamidade global, movida
por muita desumanidade e descaso para com o outro.
Desde meados do século XX, com a revolução verde que levou ao aumento da
produção e da produtividade na agricultura, atingimos o patamar de segurança
alimentar, no sentido de que, pela primeira vez, a produção agrícola passou a
ser suficiente para a alimentação de todos os humanos.
Entretanto, a capacidade de produzir alimentos em abundância não levou ao
fim da fome e da subnutrição. O que era para ser a segurança alimentar para
toda a humanidade não passou de uma vaga possibilidade. O que vimos foi, por
incrível que pareça, o aumento da insegurança alimentar em várias regiões,
sobretudo na África e em partes da Ásia.
A fome está diretamente relacionada com a pobreza. O desemprego e a baixa
remuneração de milhões de pessoas ao redor do mundo levam à privação alimentar.
Ou seja, existem alimentos, mas pecamos na distribuição e no acesso a eles.
Muitas pessoas simplesmente não têm renda suficiente para se alimentar todos os
dias.
Esse enorme contingente populacional entra num ciclo vicioso, onde a
pobreza leva à fome que, por sua vez, leva a uma situação de penúria que em
muitos casos compromete o futuro ou a própria vida dessas pessoas e de seus
descendentes.
É um drama em larga proporção que deveria incomodar a consciência humana,
se é que ela existe. Embora existam organismos internacionais e agências
nacionais voltadas para o combate à fome e à pobreza, o problema persiste em
quase todos os países.
Naturalmente são os países mais pobres e desiguais aqueles que tem
maiores contingentes de esfomeados. Mas a fome está presente também em países
ricos e desenvolvidos, porque neles também existem pobres.
A solução para esse problema é complexa. Passa pela revisão de políticas
públicas nacionais e internacionais voltadas para a supressão da fome e de um
disciplinamento da grande especulação financeira que existe em torno da
produção agrícola. Não é possível que em pleno século XXI sejamos incapazes de
rever a política de acesso a alimentos ao redor do mundo.
É imperativo que a Organização das Nações Unidas para Alimentação e
Agricultura (FAO) exerça um papel mais ativo no plano global e que seja
respeitada e apoiada pela comunidade internacional. Embora a FAO seja de grande
importância para milhares e milhares de pessoas ao redor do mundo, o suporte
que recebe da comunidade internacional ainda é insuficiente para fazer frente
ao grande desafio de eliminar a fome do planeta.
Os historiadores do futuro, quando olharem para trás, para a nossa época,
certamente notarão esse terrível paradoxo do qual a maior parte de nós é
insensível. Temos alimentos para todos, mas negamos o direito à alimentação, ou
seja, à vida, para quase um bilhão de pessoas!
*
Professor do Instituto
de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do
CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
sábado, 27 de agosto de 2016
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Refugiados e Imigrantes
Pio
Penna Filho*
As últimas imagens de pessoas desesperadas
tentando chegar ao espaço europeu tem chamado a atenção internacional para o
fenômeno dos deslocamentos humanos recentes. São cenas chocantes de milhares de
pessoas que tentam a todo o custo entrar na Europa em busca de melhores
condições de vida, mesmo que isso lhes custe a própria vida.
Essas pessoas se dividem, basicamente, em
dois grupos. Há o grupo dos refugiados, que geralmente saem de países que
passam por conflitos e guerras civis, como são os casos da Síria e do
Afeganistão, e o grupo dos imigrantes, sendo que este último reúne pessoas que
desejam uma oportunidade em algum país estável e desenvolvido.
A relativa proximidade geográfica, o nível
de desenvolvimento e a possibilidade de um recomeço de vida são os principais
atrativos identificados por imigrantes e refugiados que buscam a Europa. Lá
parece ser, para muitos, uma terra promissora, uma espécie de novo “eldorado”.
O problema é que a Europa, assim como qualquer
outra região do mundo, não está preparada para receber um fluxo tão grande de
pessoas num período tão curto de tempo. Em termos financeiros os custos para
manter uma população nova, ainda em fase de estabelecimento e adaptação, são
muito elevados.
Mas há também o problema do choque
cultural. A maioria dos refugiados e imigrantes são provenientes de culturas
muito distintas das europeias e o choque é inevitável, sobretudo com problemas
de discriminação e preconceito. Assim, a humilhação se associa à
vulnerabilidade dessas pessoas quando elas conseguem chegar à Europa.
Não há solução a curto prazo para esse
problema. Não adianta os europeus tentarem “fechar” as suas fronteiras com
arame farpado, com muros, com dispositivos militares e coisas afins. A pressão
continuará e a tendência é que esses fluxos aumentem, pelo menos ainda por um
tempo.
A única saída, e essa demanda tempo, é
tentar levar estabilidade política e algum desenvolvimento econômico para as
principais regiões de onde partem esses imigrantes e refugiados. Enquanto isso
não mudar, todas as políticas de contenção do problema estarão fadadas ao
insucesso. E isso, como se sabe, não acontece e nem acontecerá da noite para o
dia.
Há muita desigualdade no mundo
contemporâneo. Vivemos numa era globalizada, em que o mundo parece ter
encolhido, diminuído, e se tornado mais interdependente e desigual, e isso
coloca em evidência o grande contraste entre os ricos e os pobres. A busca por
melhores condições de vida é legítima e natural para o ser humano. O mundo,
portanto, não pode fechar os olhos deliberadamente para o sofrimento de tanta gente.
Esse problema não é apenas da Europa, é
bom que se diga. É um problema global e que requer, portanto, uma resposta
global.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
As Bombas de Hiroshima e Nagasaki
Pio
Penna Filho*
Segunda-feira, 6 de agosto de 1945, pouco
depois das oito horas da manhã os americanos lançaram uma bomba atômica sobre a
cidade japonesa de Hiroshima. No dia 09 do mesmo mês, porém um pouco mais tarde,
mas ainda pela manhã, foi a vez da cidade de Nagasaki. Milhares de pessoas
morreram instantaneamente. Outras milhares morreram mais lentamente, até mesmo
muitos anos após os eventos dos dias 06 e 09 de agosto.
Os Estados Unidos cometeram um verdadeiro
crime contra a humanidade no Japão. Os lançamentos das bombas atômicas, uma de
urânio e outra de plutônio, poderiam tranquilamente terem sido evitados. Mas os
americanos queriam mostrar ao mundo a sua nova e formidável arma. Queriam
também castigar o Japão pelo ataque à base naval de Pearl Harbor, que
desencadeou a guerra entre os dois países.
A decisão de lançar as bombas não foi
baseada apenas levando em conta os objetivos militares norte-americanos. Ela
teve, na verdade, um forte componente político, que era o de mostrar aos
soviéticos e ao mundo quão poderoso eram os Estados Unidos ao final da Segunda
Guerra Mundial.
O presidente dos Estados Unidos, assim
como os cientistas e as pessoas diretamente envolvidas no programa nuclear,
estavam plenamente cientes que haviam construído uma arma com potencial nunca
antes visto e que o seu impacto seria apavorante. Aliás, a escolha dos alvos
nos revela até onde pode ir a maldade humana, especialmente em tempos de
guerra.
Hiroshima foi uma cidade relativamente tranquila
durante toda a guerra. Praticamente não sofreu ataques aéreos convencionais
norte-americanos e sua população estava um tanto despreocupada com a
possibilidade de se tornar alvo direto de um ataque. Daí é possível imaginar a
surpresa de sua população quando a bomba explodiu, ainda mais porque ninguém
conseguiu compreender que arma era aquela que havia produzido um efeito tão
devastador e estranho.
A ideia era justamente essa: usar a cidade
japonesa de Hiroshima como um balão de ensaio para verificar o resultado de um
ataque nuclear real. O que aconteceria com a infraestrutura da cidade? Qual
seria a real dimensão do poder destrutivo da bomba? Quantas pessoas ela poderia
matar de uma só vez? Essas e outras dúvidas precisavam ser respondidas com uma experiência
concreta. Quanto mais destrutiva, quanto mais pessoas mortas, melhor para a
propaganda norte-americana.
Não satisfeitos com o ataque a Hiroshima,
os Estados Unidos atacaram Nagasaki com um novo artefato nuclear. Aí o crime se
materializa de vez, porque as notícias sobre os horrores ocorridos em Hiroshima
já haviam se espalhado e os Estados Unidos já tinham uma ideia mais precisa
sobre os efeitos da bomba. Caso os japoneses não se rendessem, muito
provavelmente outra bomba seria lançada. Talvez até mais de uma.
Hoje, os arsenais nucleares são muito mais
vastos e as bombas e ogivas muito mais poderosas do que aquelas lançadas no
Japão em 1945. Norte-americanos, russos, chineses, franceses, ingleses,
paquistaneses, indianos, israelenses e norte-coreanos possuem sofisticadas
bombas atômicas.
É até compreensível que tenhamos chegado
ao ponto que chegamos, sobretudo porque a humanidade é movida, em grande
medida, por sentimentos nada nobres, como bem nos ensina a História. A lição que
fica é que, infelizmente, não se deve duvidar, de jeito nenhum, da maldade
humana. Caso os Estados Unidos tivessem perdido essa guerra, certamente os seus
dirigentes seriam julgados e condenados por crimes contra a humanidade.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB),
Pesquisador do CNPq e do Centro de Estudos Estratégicos do Exército
Brasileiro (CEEEX). E-mail: piopenna@gmail.com
Paraguai: guerra injusta?
Pio
Penna Filho*
O Papa Francisco, em recente visita ao
Paraguai, afirmou que a guerra do Paraguai foi injusta. Sem dúvida, a guerra do
Paraguai foi injusta, sobretudo com o povo paraguaio. Mas qual guerra pode ser
considerada justa? O que é necessário para definir uma guerra como justa?
Talvez o Papa tenha falado isso porque é um humanista e, por princípio,
contrário a todas as formas de guerra.
É muito difícil afirmar que uma guerra é
justa. Geralmente é aceito que um país tem o direito de se defender quando
sofre uma agressão. Se for esse o caso para definir que uma guerra é “justa”,
pelo menos em seu ponto de partida, então a guerra do Paraguai começou a partir
de um ato de justiça, porque afinal o Brasil foi atacado por tropas paraguaias
que, além de invadirem o território do país, assassinaram cidadãos brasileiros
e saquearam propriedades por onde passaram.
Temos que parar com a vitimização do
Paraguai em decorrência da guerra do século XIX. É bobagem e proselitismo
barato dizer que o Brasil foi o malvado e o Paraguai, a vítima; o país bonzinho
destruído pelo poderoso Império brasileiro.
Os paraguaios seguiram até o fim o seu
líder supremo, o marechal Solano López, que arriscou a existência de sua pátria
em nome de um objetivo político impossível de ser alcançado, que era impor os
interesses do seu país ao Brasil por meio de uma medida de força. Aliás, a
reabilitação histórica de Solano López é, no fundo, um despropósito, porque
afinal foi ele o artífice de sua própria queda e da ruína do seu país. É esse
tipo de líder ou herói que os paraguaios querem cultuar?
López teve o destino que mereceu. Suas
próprias ações levaram a isso. Acusar o Imperador e os militares brasileiros de
terem conduzido uma guerra injusta não faz o menor sentido, a não ser na
perspectiva da vitimização de um país que foi vítima do seu próprio líder
supremo. Não devemos, como brasileiros, portanto, ceder a esse canto da sereia
do revisionismo histórico sem fundamento nos fatos.
É preciso, portanto, colocar a questão em
perspectiva. Nesse caso, não há como mudar a História. O que aconteceu foi que
o Paraguai, numa atitude insana, atacou o Brasil e a Argentina e pagou para
ver. O que queria Solano López? Que o Império brasileiro recuasse e aceitasse a
vontade política do Paraguai, intimidado por uma agressão militar? Ora, isso
simplesmente não existe.
O Brasil exerceu o seu direito e, diria
mesmo, sua obrigação de revide a uma agressão externa. E é sempre bom lembrar
que quem se preparou para a guerra foi o Paraguai. Nem o Brasil e nem a
Argentina pensavam em guerrear com o Paraguai, por isso o prolongamento do
conflito, uma vez que os seus exércitos estavam despreparados para a guerra.
É verdade que a guerra atingiu um patamar
absurdo de violência e que quem pagou o preço mais caro por ela foi o povo
paraguaio. Mas qual guerra não é violenta? A violência é inerente à guerra.
Acusações de crueldade em guerras são redundantes e, por vezes, são usadas como
forma de denegrir a imagem de um dos atores por motivos políticos. Tão covarde
quanto matar crianças em combate é colocá-las em combate, isso apenas para
ilustrar um dos episódios mais criticados da guerra.
Portanto, a guerra do Paraguai foi injusta
como todas as guerras são injustas. É preciso parar com esse proselitismo
barato de que o Paraguai é o que é por causa do Brasil.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB),
Pesquisador do CNPq e do Centro de Estudos Estratégicos do Exército
Brasileiro (CEEEX). E-mail: piopenna@gmail.com
domingo, 30 de agosto de 2015
domingo, 2 de agosto de 2015
ORIENTALISMO, resenha do livro de Edward W. Said
Autor: FÁBIO DE OLIVEIRA RIBEIRO
Você pode não ter percebido, mas a imprensa brasileira criou um modelo idealizado dos árabes durante o último ciclo de invasões americanas no Oriente Médio. Se quer entender o processo de construção do mesmo você deve ler ORIENTALISMO, de autoria de Edward W. Said.
O livro, que no Brasil foi publicado pela Companhia das Letras, é dividido em três partes. Na primeira o autor trata do alcance do orientalismo, na segunda das estruturas do mesmo e no terceiro do orientalismo na atualidade. Apesar de ter sido publicado na década de 1970, ORIENTALISMO é uma obra fundamental para compreendermos como o Ocidente inventou o Oriente.
Foi o orientalismo que construiu os consensos que permitem e legitimam as atrocidades americanas no Oriente Médio. Israel serve-se do mesmo para submeter de maneira brutal os palestinos dentro e fora do seu território.
Em prefácio para a obra escrito em 2003, Said afirma que as "...sociedades contemporâneas de árabes e muçulmanos sofreram um ataque tão maciço, tão calculadamente agressivo em razão de seu atraso, de sua falta de democracia e de sua supressão dos direitos das mulheres que simplesmente esquecemos que noções como modernidade, iluminismo e democracia não são, de modo algum, conceitos simples e consensuais que se encontram ou não, como ovos de Páscoa, na sala de casa." A observação é precisa. Afinal, até bem pouco tempo muitos paises considerados ocidentais ou viviam sob ditaduras (Argentina, Chile, Brasil) ou apoiavam regimes autoritários em nome da democracia (EUA) .
Na introdução da obra, o autor esclarece que o "...Oriente não é apenas adjacente à Europa; é também o lugar das maiores, mais ricas e mais antigas colônias européias, a fonte de suas civilizações e línguas, seu rival cultural e uma das suas imagens mais profundas e mais recorrentes do Outro. Além disto, o Oriente ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente) com sua imagem idéia, personalidade, experiência contrastantes. Mas nada nesse Oriente é meramente imaginativo. O Oriente é uma parte integrante da civilização e da cultura material européia. O Orientalismo expressa e representa essa parte em termos culturais e mesmo ideológicos, num modo de discurso baseado em instituições, vocabulário, erudição, imagens, doutrinas, burocracias e estilos coloniais."
Ao longo da obra Said demonstrará como este Outro foi material e intelectualmente importante para consolidar o Ocidente. Também demonstrará que nunca houve uma contrapartida. Enquanto os europeus (e depois os americanos) alimentavam o orientalismo no Oriente não houve um processo intelectual similar. Não há um ocidentalismo produzido por intelectuais árabes. A prova desta assimetria é evidente, pois "...tem se estimado, que foram escritos cerca de 60 mil livros sobre o Oriente Próximo entre 1800 e 1950; não há um número nem de longe comparável de livros orientais sobre o Ocidente. Como aparato cultural, o Orientalismo é agressão, atividade, julgamento, persistência e conhecimento."
Para Said a "...relação entre Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação, de graus variáveis de uma hegemonia complexa..." O orientalismo, não foi, portanto, apenas o resultado de ocupações militares. Foi principalmente um investimento continuado que criou "...um sistema de conhecimento sobre o Oriente, uma rede aceita para filtrar o Oriente na consciência ocidental, assim como o mesmo investimento multiplicou - na verdade, tornou verdadeiramente produtivas - as afirmações que transitam do Orientalismo para a cultura em geral."
Muitos escritores europeus se dedicaram ao orientalismo ou por ele foram influenciados. Nem todos tinham consciência do verdadeiro valor político e ideológico de sua produção intelectual para a hegemonia do Ocidente no Oriente. De qualquer maneira ocorreu "...um intercâmbio dinâmico entre autores individuais e os grandes interesses políticos modelados pelos três grandes impérios - o britânico, o francês e o americano - em cujo território intelectual e imaginativo a escrita foi produzida."
O orientalismo se encarregou de representar o Oriente, de definir seus contornos, características e vocações. Tudo isto foi feito á margem dos interesses do habitantes do Oriente. Não foram os orientais mas os ocidentais que criaram e alimentaram - e ainda alimentam - o orientalismo. Mas não é o que está oculto nos textos orientalistas que chamaram a atenção de Said. Sua análise tem como objeto o que está na superfície dos textos. É na sua exterioridade em relação ao que descreve que Sai descobre todo um universo de percepções distorcidas.
O produto desta exterioridade é a representação "...desde um marco tão remoto como a peça de Ésquilo Os Persas, o Oriente é transformado, passando de uma alteridade muito distante e freqüentemente ameaçadora para figuras que são relativamente familiares (no caso de Ésquilo, mulheres asiáticas aflitas)." Segundo Said a peça "...obscurece o fato de que o público está assistindo uma encenação altamente artificial de algo que um não oriental transformou num símbolo de todo o Oriente." O mesmo seria feito de maneiras parecidas pelos autores medievais, iluministas e modernos.
Recentemente tivemos a oportunidade de ver como o orientalismo atua da forma parecida no cinema. No filme 300, Xerxes foi representado como um gigante libidinoso cercado de seres infernais. A única virtude do personagem de Frank Miller é faltar-lhe todos atributos dos gregos comandados por Leonidas (humanidade, honra, virilidade e coragem). O filme é uma representação de outra representação, ou seja, uma versão distorcida da história do episódio da segunda Guerra Médica - que como todos sabem chegou a nós através da narrativa de um grego não por um persa. O enredo do filme se afastou-se de tal maneira do livro de Heródoto que tomei a liberdade de fazer uma comparação entre o mesmo e o suposto clássico de Frank Miller.
O filme 300 é sedutor e tem efeitos especiais magníficos. É, portanto, um típico exemplo de como a tecnologia também tem sido utilizada para preservar o cânone orientalista. Já na década de 1970, Said percebeu que um "...aspecto do mundo eletrônico pós-moderno é que houve um reforço dos estereótipos pelos quais o Oriente é visto. A televisão, os filmes e todos os recursos da mídia têm forçado as informações a se ajustar em moldes cada vez mais padronizados. No que diz respeito ao Oriente, a padronização e os estereótipos culturais intensificam o domínio da demonologia imaginativa e acadêmica do 'misterioso Oriente' do século XIX."
Ao tratar do alcance do orientalismo, Said faz referência a dois políticos ingleses: Balfour e Cromer.
No princípio do século XX, o britânico Arthur James Balfour proferiu um discurso na Câmara dos Comuns sobre os problemas no Egito. Após analisar o mesmo detalhadamente, Said percebeu que o discurso pode ser decomposto da seguinte maneira: "A Inglaterra conhece o Egito; o Egito é o que a Inglaterra conhece; a Inglaterra sabe que o Egito não pode ter autogoverno; a Inglaterra confirma esse conhecimento ocupando o Egito; para os egípcios, o Egito é o que a Inglaterra ocupou e agora governa; a ocupação estrangeira torna-se, portanto, 'a própria base' da civilização egípcia contemporânea; o Egito requer, até insistentemente, a ocupação britânica."
No discurso de Balfour o Egito não um país. É uma categoria britânica. Os egípcios não são seres humanos, mas coisas que preenchem um espaço geográfico ocupado pelo exército colonial da Inglaterra.
Ao contrário de Balfour, Cromer foi governador colonial dos egípcios. Mesmo assim nunca fez quaisquer "...esforços para esconder que, a seus olhos, os orientais eram apenas o material humano que ele governava nas colônias britânicas". Para Cromer o oriental "...age, fala e pensa de um modo exatamente oposto ao do europeu."
O autor de ORIENTALISMO detectou na linguagem de Balfour e Cromer que o "...oriental é descrito como algo que se julga (como um tribunal), algo que se estuda e descreve (como num currículo), algo que se disciplina (como numa escola ou prisão), algo que se ilustra (como num manual de zoologia). O ponto é que em cada um desses casos o oriental é contido e representado por estruturas dominadoras." Apenas a título de ilustração, sugiro ao leitor que imagine um egípcio falando dos britânicos em termos parecidos. Qual seria a reação dos britânicos se isto ocorresse? Caso o leitor não seja capaz de imaginar uma situação tão inusitada ou de compreender a simetria entre as reações de um inglês e um egípcio às representações feitas de ambos pelo Outro o orientalismo certamente já capturou sua consciência.
A análise de discursos políticos pode dar a impressão que o orientalismo foi produto do colonialismo do século XIX. Não foi. Muito antes do colonialismo europeu os ocidentais já haviam criado e se apropriado ideologicamente do Oriente. Mas Said reconhece que durante a expansão européia (1815/1914) houve um progresso imenso das instituições e do conteúdo orientalista.
"O Orientalismo foi submetido ao imperialismo, ao positivismo, ao utopismo, ao estoicismo, ao darwinismo, ao racismo, ao freudianismo, ao marxismo, ao spenglerismo. Mas o Orientalismo, como muitas da ciências naturais e sociais, tem ?paradigmas? de pesquisa, suas próprias sociedades eruditas, seu próprio establishiment."
Como representação do Outro, o orientalismo tratou de criar uma imagem do islã. Esta imagem foi construída principalmente em razão do medo, porque depois da "...morte de Maomé em 632, a hegemonia militar e mais tarde cultural e religiosa do islã cresceu enormemente. Primeiro, a Pérsia, a Síria e o Egito, depois a Turquia e mais tarde a África do Norte caíram nas mãos dos exércitos muçulmanos; nos séculos VIII e IX, a Espanha, a Sicília e partes da França foram conquistadas."
Mesmo após a reconquista de vastas áreas ao islã, os europeus preservaram a imagem negativa do islã e dos orientais. Em razão disto, não só "...o Orientalismo é acomodado às exigências do cristianismo ocidental; é também circunscrito por uma série de atitudes e julgamentos que não enviam a mente ocidental em primeiro lugar às fontes orientais para correção e verificação, mas antes a outras obras orientalistas.O palco do orientalista, como venho chamando, torna-se um sistema moral e epistemológico."
Após fazer uma longa referência a campanha napoleônica no Egito, Said esclarece que enquanto "...os historiadores da Renascença julgavam o Oriente inflexivelmente como um inimigo, os do século XVIII confrontavam as peculiaridades do Oriente com algum distanciamento e com uma tentativa de lidar diretamente com a fonte oriental da matéria, talvez porque essa técnica ajudasse o europeu a conhecer melhor." A conhecer e a dominar, pois foi o erudito Silvestre Sacy "...quem traduziu a proclamação aos argelinos..." quando os franceses ocuparam Argel em 1830.
Sacy foi o primeiro grande orientalista. "Seu heroísmo como erudito foi ter enfrentado com sucesso dificuldades insuperáveis; adquiriu os meios de apresentar um campo de estudo a seus estudantes, quando não havia campo nenhum. Ele fez os livros, os preceitos, os exemplos, dizia sobre Sacy o duque Broglie."
Renan continuou a obra de Sacy. Mas ao contrário dele, Renan "...não falava realmente como um homem a todos os homens, mas antes como uma voz especializada e reflexiva que aceitava, como ele disse no prefácio de 1890, a desigualdade das raças e a dominação necessária por uma minoria como uma lei antidemocrática da natureza e da sociedade." Em Renan a superioridade européia e a inferioridade oriental são axiomas indiscutíveis.
Do alto de seu pedestal, Renan não tinha escrúpulos em julgar os semitas (árabes e judeus) degenerados. "Leia-se quase toda página de Renan sobre o árabe, o hebraico, o aramaico ou o proto-semítico, e o que se lê é um fato de poder, pelo qual a autoridade do filólogo orientalista colhe à vontade na biblioteca exemplos do discurso humano e ali os enfileira rodeados por uma suava prosa européia que aponta os defeitos, as virtudes, os barbarismos e as deficiências na linguagem, no povo e na civilização."
Não há dúvidas de que o orientalismo de Renan ajudou a criar e reforçar o mito da superioridade européia. O próprio Said afirma que "...não é exagerado dizer que o laboratório filológico de Renan é o local real de seu etnocentrismo europeu; mas o que precisa ser enfatizado é que o laboratório filológico não existe fora do discurso, a escrita pela qual é constantemente produzido e experimentado."
Nem Karl Marx escapou dos preconceitos orientalistas. Ao analisar a ocupação inglesa da Índia o alemão afirmou que "...não devemos esquecer que essas comunidades de vida idílica, por mais inofensivas que possam parecer, sempre foram o fundamento sólido do despotismo oriental." A referência ao "despotismo oriental" é sugestiva. Para Said as "...análises econômicas de Marx são perfeitamente adequadas a um empreendimento orientalista padrão, ainda que a humanidade de Marx, a sua simpatia pela miséria do povo, esteja claramente envolvida."
Vários escritores orientalistas residiram no Oriente. Este foi o caso de Lane, Flaubert, Vigny, Nerval, Kinglake, Disraeli, Burton, Byron, Scott, Chateaubriand e T.E. Lawrence. Mesmo tendo palmilhado as terras orientais e mantido contato com os povos árabes, nenhum destes autores deixou de criar representações do Oriente. Mas não vou entrar em detalhes para não retirar do leitor o prazer de conhecer como cada representação criada do Oriente foi decomposta, classificada e analisada por Said.
A leitura de ORIENTALISMO nos ajuda compreender como as relações entre o Ocidente e o Oriente foram lentamente moldadas de maneira a permitir uma verdadeira colonização cultural e territorial do Oriente Médio. Para o autor "...a versão do mito criada no século XX tem sido mantida com muito maior dano. Produziu uma imagem do árabe visto por uma sociedade 'adiantada' quase ocidental. Na sua resistência aos colonialistas estrangeiros, o palestino era ou um selvagem estúpido ou uma grandeza negligível, moral e existencialmente." A cada episódio dramático do conflito entre israelenses e palestinos a inferioridade moral dos últimos tem sido reforçada pela imprensa. Os homens bombas são sempre descritos como terroristas. Os pilotos israelenses que despejam bombas e mísseis em alvos civis não são terroristas, são soldados eficientes cumprindo seu dever de retaliar a brutalidade dos terroristas.
Recentemente vimos como a imprensa mundial legitimou as campanhas americanas no Oriente Médio fazendo referências diárias a inferioridade moral dos 'árabes', a estreiteza da 'mente árabe'v ao atraso do 'tribalismo árabe', a violência insuperável 'do islamismo'... Contraposta às virtudes ocidentais (democracia, humanitarismo, etc.) a 'barbárie natural do árabe' continua justificando as maiores atrocidades cometidas desde o Vietnan (bombardeios a civis, tortura e execução de prisioneiros de guerra, degradação do meio ambiente nos territórios ocupados e devastados etc.). Os leitores de Edward W. Said percebem rapidamente que as recentes invasões do Iraque e Afeganistão foram justificadas e, de certa maneira, ocasionadas pelo orientalismo.
Já na década de 1970 o eminente professor afirmava que o "...orientalismo também se espalhou nos Estados Unidos agora que o dinheiro e os recursos árabes tem acrescentado um considerável charme à tradicional 'preocupação' com o Oriente, estrategicamente importante. O fato é que o Orientalismo tem se acomodado com sucesso ao novo imperialismo, no qual os seus paradigmas regentes nem contestam, e até confirmam, o persistente desígnio imperial de dominar a Ásia."
Ao invés aceitar pacificamente as imagens orientalistas e as guerras causadas e justificadas pelo orientalismo o livro sugere que devemos conhecer melhor a nós mesmos como ocidentais. O grego Sócrates, considerado o fundador da filosofia ocidental dizia sempre 'conhece-te a ti mesmo'. Curiosa e ironicamente não foram os intelectuais europeus e anglo-americanos modernos que permitiram ao Ocidente conhecer-se.
FONTE: http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/orientalismo-resenha-do-livro-de-edward-w-said
Darwinismo Social
O domínio da África e da Ásia, exercido pelos países industrializados, teve duas principais formas: 1ª) a dominação política e econômica direta (os próprios europeus governavam); 2ª) a dominação política e econômica indireta (as elites nativas governavam). Mas como as potências imperialistas legitimaram o domínio, a conquista, a submissão e a exploração de dois continentes inteiros?
A principal hipótese para a legitimação do domínio imperialista europeu sobre a África e a Ásia foi a utilização ideológica de teorias raciais europeias provenientes do século XIX. As que mais se destacaram foram o evolucionismo social e o darwinismo social.
Um dos discursos ideológicos que “legitimariam” o processo de domínio e exploração dos europeus sobre asiáticos e africanos seria o evolucionismo social. Tal teoria classificava as sociedades em três etapas evolutivas: 1ª) bárbara; 2ª) primitiva; 3ª) civilizada. Os europeus se consideravam integrantes da 3ª etapa (civilizada) e classificavam os asiáticos como primitivos e os africanos como bárbaros. Portanto, restaria ao colonizador europeu a “missão civilizatória”, através da qual asiáticos e africanos tinham de ser dominados. Sendo assim, estariam estes assimilando a cultura europeia, podendo ascender nas etapas de evolução da sociedade e alcançar o estágio de civilizados.
O domínio colonial, a conquista e a submissão de continentes inteiros foram legal e moralmente aceitos. Desse modo, os europeus tinham o dever de fazer tais sociedades evoluírem.
O darwinismo social se caracterizou como outra teoria que legitimou o discurso ideológico europeu para dominar outros continentes. O darwinismo social compactuava com a ideia de que a teoria da evolução das espécies (Darwin) poderia ser aplicada à sociedade. Tal teoria difundia o propósito de que na luta pela vida somente as nações e as raças mais fortes e capazes sobreviveriam.
A partir de então, os europeus difundiram a ideia de que o imperialismo, ou neocolonialismo, seria uma missão civilizatória de uma raça superior branca europeia que levaria a civilização (tecnologia, formas de governo, religião cristã, ciência) para outros lugares. Segundo o discurso ideológico dessas teorias raciais, o europeu era o modelo ideal/ padrão de sociedade, no qual as outras sociedades deveriam se espelhar. Para a África e a Ásia conseguirem evoluir suas sociedades para a etapa civilizatória, seria imprescindível ter o contato com a civilização europeia.
Hoje sabemos que o evolucionismo social e o darwinismo social não possuem nenhum embasamento ou legitimidade científica, mas no contexto histórico do século XIX foram ativamente utilizados para legitimar o imperialismo, ou seja, a submissão, o domínio e a exploração de continentes inteiros.
fonte: http://www.mundoeducacao.com/historiageral/darwinismo-social-imperialismo-no-seculo-xix.htm
Com o passar do tempo, observamos que as noções trabalhadas por Darwin acabaram não se restringindo ao campo das ciências biológicas. Pensadores sociais começaram a transferir os conceitos de evolução e adaptação para a compreensão das civilizações e demais práticas sociais. A partir de então o chamado “darwinismo social” nasceu desenvolvendo a ideia de que algumas sociedades e civilizações eram dotadas de valores que as colocavam em condição superior às demais.
Na prática, essa afirmativa acaba sugerindo que a cultura e a tecnologia dos europeus eram provas vivas de que seus integrantes ocupavam o topo da civilização e da evolução humana. Em contrapartida, povos de outras regiões (como África e Ásia) não compartilhavam das mesmas capacidades e, por tal razão, estariam em uma situação inferior ou mais próxima das sociedades primitivas.
A divulgação dessas teorias serviu como base de sustentação para que as grandes potências capitalistas promovessem o neocolonialismo no espaço afro-asiático. Em suma, a ocupação desses lugares era colocada como uma benfeitoria, uma oportunidade de tirar aquelas sociedades de seu estado “primitivo”. Por outro, observamos que o darwinismo social acabou inspirando os movimentos nacionalistas, que elaboravam toda uma justificativa capaz de conferir a superioridade de um povo ou nação.
De fato, o darwinismo social criou métodos de compreensão da cultura impregnados de equívocos e preconceitos. Na verdade, ao falar de evolução, Darwin não trabalhava com uma teoria vinculada ao choque binário entre superioridade e inferioridade. Sendo uma experiência dinâmica, a evolução darwiniana acreditava que as características que determinavam a “superioridade” de uma espécie poderiam não ter serventia alguma em outros ambientes prováveis.
Com isso, podemos concluir que as sociedades africanas e asiáticas nunca precisaram necessariamente dos valores e invenções oferecidas pelo mundo ocidental. Isso, claro, não significa dizer que o contato entre essas culturas fora desastroso ou marcado apenas por desdobramentos negativos. Entretanto, as imposições da Europa “superior” a esses povos “inferiores” acabaram trilhando uma série de graves problemas de ordem, política, social e econômica.
Na prática, essa afirmativa acaba sugerindo que a cultura e a tecnologia dos europeus eram provas vivas de que seus integrantes ocupavam o topo da civilização e da evolução humana. Em contrapartida, povos de outras regiões (como África e Ásia) não compartilhavam das mesmas capacidades e, por tal razão, estariam em uma situação inferior ou mais próxima das sociedades primitivas.
A divulgação dessas teorias serviu como base de sustentação para que as grandes potências capitalistas promovessem o neocolonialismo no espaço afro-asiático. Em suma, a ocupação desses lugares era colocada como uma benfeitoria, uma oportunidade de tirar aquelas sociedades de seu estado “primitivo”. Por outro, observamos que o darwinismo social acabou inspirando os movimentos nacionalistas, que elaboravam toda uma justificativa capaz de conferir a superioridade de um povo ou nação.
De fato, o darwinismo social criou métodos de compreensão da cultura impregnados de equívocos e preconceitos. Na verdade, ao falar de evolução, Darwin não trabalhava com uma teoria vinculada ao choque binário entre superioridade e inferioridade. Sendo uma experiência dinâmica, a evolução darwiniana acreditava que as características que determinavam a “superioridade” de uma espécie poderiam não ter serventia alguma em outros ambientes prováveis.
Com isso, podemos concluir que as sociedades africanas e asiáticas nunca precisaram necessariamente dos valores e invenções oferecidas pelo mundo ocidental. Isso, claro, não significa dizer que o contato entre essas culturas fora desastroso ou marcado apenas por desdobramentos negativos. Entretanto, as imposições da Europa “superior” a esses povos “inferiores” acabaram trilhando uma série de graves problemas de ordem, política, social e econômica.
fonte: http://www.brasilescola.com/historiag/darwinismo-social.htm
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
ENEM – INSTRUÇÕES PARA O DIA
Para
fazer na sexta feira
v Visite o local em que fará a
prova. Se for de ônibus, verifique as linhas que operam no final de semana e os
horários.
4
Separe os documentos que irá levar. Leve o cartão de confirmação que recebeu
pelo correio e documento de identidade, com foto (RG, CNH, por exemplo).
Carteira de estudante não vale.
á
Escolha roupas e calçado que sejam confortáveis
para o dia de prova. Dia de ENEM não é dia de estar na moda. Prefira uma que
tenha bolso, para a caneta e os documentos.
" Separe
as canetas que irá levar e as teste antecipadamente. Somente é permitido o uso
de caneta esferográfica de tinta preta fabricada em material
transparente e, por segurança, leve mais uma. Não serve caneta com gel, nem
tinta azul. Fuja dos brindes com corpo branco ou colorido.
No
sábado, antes de sair de casa
ã Durma
bem. Nada de ficar estudando até de madrugada. Afinal, o bom descanso vale mais
que uma revisão de última hora.
ä Coma
carboidratos: pão, massa, arroz, batata, pois eles fornecem energia e têm
rápida digestão. Fuja de gorduras. Nada de comer coisas diferentes, que não
está acostumado, porque ouviu dizer que fazem bem.
L Leve
o lanche que fará durante a prova: fruta, barra de cereal, bolacha, chocolate,
água. Nada em excesso, obviamente.
²¨ - Não
leve livros, lembretes, resumos, nem lápis, lapiseira, borrachas, impressos, óculos
escuros, boné, chapéu, viseira, gorro ou similares e quaisquer dispositivos
eletrônicos, tais como: máquinas calculadoras, agendas eletrônicas ou
similares, telefones celulares, smartphones, tablets, ipod®, gravadores,
pen drive, mp3 ou similar, relógio, ou qualquer receptor ou transmissor
de dados e mensagens. Não esqueça que você poderá ser submetido a identificador
de metais a qualquer momento e será eliminado se estiver portando estes
objetos.
Confira se você está com seu documento de identidade! É obrigatória a
apresentação de documento original com foto.
6 Saia
cedo de casa. Você deverá estar no seu local da prova quando os portões
abrirem, às 11h00 (horário de Mato Grosso). Se alguém te levar, não hesite em
descer antes e terminar o trajeto a pé, se o trânsito travar, mesmo porque em
Cuiabá alguns pontos têm congestionamento infernal no dia do ENEM, como a Av.
Beira-Rio, na altura da UNIC e Unirondon, o ICEC e a entrada da UFMT.
Y Se
qualquer pessoa quiser te levar e ficar contigo até você entrar, não se acanhe:
aceite. Nada se preocupar em pagar mico. Se na última hora der um frio na
barriga, vale a pena ter alguém para nos destilar sabedoria (do tipo: não fique
assim, você é ótimo(a), está bem preparada(o), vai dar tudo certo, etc). Melhor
um apoio meio sem base que nada. Lembre-se que às 11h55 (horário de MT) os
portões serão fechados.
Na
hora da prova
☻
Antes
de entrar em sala, vá ao banheiro, para evitar sair durante a prova.
@ Na
entrada da sala você apresentará seu documento de identificação e assinará a
lista de presença.
È – Se
tiver levado celular ou algum outro objeto de porte proibido, o fiscal da sala
fornecerá um saquinho pomposamente denominado “porta-objetos”, no qual você os guardará.
Desligue os objetos eletrônicos antes de guarda-los.
 Ao
receber o caderno de provas, aguarde a autorização do fiscal para começar a
fazê-la. Olhe o caderno todo para verificar se não há páginas em branco. Leia
as instruções.
þ
Marque imediatamente, no cartão de respostas, a cor do seu tipo de prova. Não
deixe para fazer isso no final, quando for marcar as respostas, porque você
poderá se esquecer. Também transcreva a frase da capa do caderno de provas para
seu cartão de respostas. Sem estas marcações você será considerado ausente e
terá nota zero.
6 O
fiscal da prova fixará um cartaz com o tempo de prova decorrido. A cada meia
hora ele retirará uma etiqueta, indicando quanto tempo ainda há de prova. Nos
últimos 15 minutos também haverá indicação no cartaz. Você somente levará o
caderno de provas se sair nos últimos 30 minutos.
ü Faça
as questões mais fáceis primeiro. As que tiver mais dificuldade, deixe para o
final.
¸ Você
não poderá ir embora antes de decorridas duas horas da prova. Este é o chamado
“período de sigilo”, em todo país, para que ninguém divulgue assuntos ou
questões da prova.
R As
questões de Língua Estrangeira de Inglês e Espanhol têm a mesma numeração.
Marque no cartão de respostas as do idioma que você escolheu na inscrição. Não pense em “mudar” de opção na
hora, porque achou a outra prova mais fácil, pois os gabaritos são diferentes.
Depois
da prova do sábado
N O
Inep estabelece que o candidato somente poderá ligar o celular fora do local de
prova, distante mais de 100 metros. Ninguém vai ficar com uma trena medindo a
distância, mas não corra o risco de ser desclassificado.
= Não vale
a pena corrigir a prova. O número de acertos e erros não é determinante, por
conta da TRI. Por isso, guarde a prova.
<
Verifique o blog do Master à noite, para ver dicas da Redação do domingo.
Após
as provas do domingo
% Agora
sim. Pode pegar seus cadernos de prova dos dois dias e corrigir. Nem pense em
se preocupar com o resultado: você somente o saberá quando o Inep divulga-lo. A
sua parte você já terá feito.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Infâmia e Massacre em Gaza
Pio
Penna Filho*
As cenas são fortes: casas e prédios
destruídos, hospitais e ambulâncias atacados, homens, mulheres, idosos e
crianças mortos por um dos exércitos mais bem equipados e treinados do mundo.
Violações sistemáticas e indiscutíveis dos mais elementares direitos humanos
estão ocorrendo nesse momento na Palestina perpetrados pelo governo de Israel,
inclusive com suspeita de crimes de guerra.
A guerra da palestina, ou melhor, o
massacre na palestina de julho de 2014 entrará para a galeria da história como
mais uma das brutais ações promovidas pela estupidez humana.
Não bastasse a derrubada do avião da
Malaysia Air com seus quase trezentos mortos na semana passada, sem contar a
própria violência da guerra civil na Ucrânia e em tantas outras partes do mundo
(vale lembrar a quase já esquecida Síria), assistimos agora ao brutal e
indiscriminado massacre de palestinos na Faixa de Gaza.
Israel insiste em alegar que a culpa da
guerra, do massacre, é exclusivamente do movimento Hamas. Está apenas
parcialmente correto. Israel, por seus atos, resolveu dividir a infâmia com o
Hamas. Ambos estão errados. Ambos devem ser diretamente responsabilizados pela
violação do direitos humanos e pelo assassinato de centenas de pessoas.
O Hamas não deseja a paz com Israel. Suas
ações indicam que o grupo insiste na equivocada ideia da impossibilidade de que
palestinos e israelenses possam conviver em áreas contíguas. Insiste em
desafiar militarmente um Estado poderoso. Insiste em lançar foguetes e espalhar
o medo e o terror nas cidades israelenses.
Israel, por sua vez, faz da vida de
milhares de palestinos uma verdadeira tormenta. No dia a dia prevalece a
humilhação com os procedimentos de “segurança” impostos aos palestinos que, sem
alternativa econômica, são obrigados a procurar trabalho em Israel. Durante os
conflitos, como o atual, as Forças Armadas de Israel atacam alvos quase
indiscriminadamente, matando ou ferindo centenas de civis.
No plano externo, a ONU tem feito pouco
para encaminhar o problema entre israelenses e palestinos. Mas, no fundo, todos
sabemos como a ONU funciona e, principalmente, suas limitações. O problema,
portanto, não é exatamente a ONU, mas sim o comportamento dos Estados Unidos e,
eventualmente, dos seus aliados europeus.
É interessante observar que todas as
iniciativas internacionais para solucionar o conflito falharam. Algumas
provocaram alguns avanços, mas nada a ponto de resolver o problema da
Palestina. Portanto, enquanto não ocorrer uma mudança no
comportamento dos atores internacionais e regionais mais importantes, pouca
esperança restará para o povo palestino.
E é exatamente isso que alimenta
movimentos radicais como o Hamas. A falta de perspectiva é tão grande para a
comunidade palestina que alguns dos seus membros acabam acreditando que, de
fato, a única saída é por meio da violência.
Infelizmente não há nenhum cenário
positivo no curto e médio prazos para a questão palestina. O que estamos
assistindo hoje tem tudo para acontecer de novo e de novo, só para nos lembrar que
a intransigência política, o egoísmo e a estupidez humanas estão muito longe de
terminar.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
segunda-feira, 14 de julho de 2014
O Perigo do Ebola
Pio
Penna Filho*
Desde 1976, de tempos em tempos o vírus do
ebola ressurge em alguma parte do continente africano mostrando todo o seu poder
mortífero. Recentemente uma nova onda apareceu na Guiné e logo ultrapassou suas
fronteiras, atingindo Libéria e Serra Leoa, países vizinhos. Várias cidades já
registraram sua presença e mais de 500 pessoas morreram. Essa contabilidade
tende a aumentar com o passar das horas e dos dias, e provavelmente a
quantidade de mortos é bem maior do que 500.
O Ebola é um vírus extremamente perigoso.
Estimativas indicam que cerca de 90% das pessoas contaminadas morrem e, via de
regra, de maneira muito dolorosa. Sua forma de disseminação se dá basicamente
pelo contato com sangue e secreções de pessoas contaminadas, o que eleva
enormemente o risco para todos aqueles que de alguma forma tem que tratar diretamente
dos doentes, como enfermeiros, médicos, familiares e amigos (sendo que também é
alto o risco para o pessoal responsável no pós morte, como agentes funerários e
coveiros).
E há ainda o estigma da doença. São muitos
os casos de pessoas discriminadas por terem parentesco com alguém que contraiu
o ebola ou porque vivem em áreas que registraram casos da doença. Não é exagero
afirmar que ela causa um verdadeiro pânico nas populações das regiões e
adjacências em que se faz ou se fez presente.
Não existe vacina ou cura para o ebola,
apenas tratamento dos sintomas, como febre, dores musculares, dores de cabeça,
inflamação na garganta, dentre outros. Além disso, o seu diagnóstico preciso
depende de exames laboratoriais, o que demanda recursos e a existência de uma
infraestrutura mínima de saúde, o que é raro de se encontrar nas regiões mais
interioranas da África.
Quando um surto de ebola é identificado,
as chances do vírus ter se espalhado são muito grandes, sobretudo quando a
estrutura de vigilância sanitária não existe ou é precária. E esse quadro é,
infelizmente, a realidade reinante nos países pobres ou em desenvolvimento
(embora também exista em países mais desenvolvidos).
No atual quadro, o desafio maior do ebola
é regional, ou seja, o vírus se espalhou para países de uma mesma região
ficando, aparentemente, restrito ao continente africano.
Com o aumento dos deslocamentos humanos entre países e entre continentes, é bem
plausível e até provável que em breve esse vírus chegue a outros continentes.
Contudo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera baixa, pelo menos por
enquanto, a probabilidade de que o vírus saia do continente africano.
Destaque-se, entretanto, que por baixa que
seja, essa probabilidade existe e se o vírus atingir cidades com grandes
aglomerações humanas o seu controle se tornará muito difícil, senão impossível.
Hoje em dia, como observado anteriormente,
os deslocamentos humanos, inclusive em longas distâncias, são corriqueiros e
raramente existem controles sanitários. Mesmo porque, nesse caso e em vários
outros relacionados a doenças transmissíveis, existe uma fase assintomática,
sendo impossível detectar sinais de determinadas doenças a olho nu.
Por enquanto a epidemia do ebola, mesmo
fora de controle, está restrita a partes da África Ocidental, mas o perigo de
sua disseminação para outras partes do mundo é real. Não se trata, pois, de um
problema exclusivamente africano, e o envolvimento das autoridades de saúde
pública internacional devem levar isso em consideração antes que seja tarde
demais.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
terça-feira, 8 de julho de 2014
Israel-Palestina: conflito sem fim
Autor: Prof. Dr. Pio Penna Filho (UNB)
Os radicais ganharam mais um round na turbulenta política envolvendo Israel e Palestina. O rapto, seguido da execução, de três jovens israelenses despertou a ira de parte das autoridades israelenses e de grupos mais radicais, que juraram vingança. A situação só se complica a cada dia desde a descoberta dos corpos e sua identificação por meio de exames de DNA.
Tudo indica que essa execução foi uma ação de radicais islâmicos, que torcem para que palestinos e israelenses jamais consigam chegar a um acordo de paz que leve à coexistência pacífica dos dois Estados.
O triplo assassinato promoveu, infelizmente, e como era de se esperar, uma reação violenta por parte do governo israelense. O território palestino foi bombardeado e muitas pessoas foram feridas e algumas provavelmente morreram pela ação militar israelense. Por sua vez, radicais palestinos lançaram foguetes contra Israel e prometeram“abrir as portas do inferno” para os israelenses.
Ou seja, é a violência alimentando a violência. Ambos os lados estão agindo acima da lei e prejudicando uma relação que já é para lá de complicada. Israel tem condições de investigar e capturar os assassinos dos três jovens sem necessariamente empregar uma força tão desproporcional. E é também (ou deveria ser) do interesse direto das autoridades palestinas colaborar com essa captura para a punição dos responsáveis dentro da lei.
O que não pode (ou não deveria) continuar acontecendo é a escalada da violência motivada pela pura e simples vingança. Aliás, suspeita-se fortemente que a morte de um jovem palestino ocorrida depois da descoberta dos corpos dos jovens de Israel foi obra de alguns israelenses que, agindo assim, só fazem alimentar ainda mais o ódio de lado a lado.
É claro que o conflito Israel-Palestina vai muito além desses episódios. Eles apenas incitam mais violência. Enquanto o problema não for encaminhado de forma a contemplar os interesses dos dois lados, é muito difícil imaginar um cenário de paz e convívio mais harmônico.
É curioso notar que há radicais em ambos os lados que não desejam a paz. Eles lutam, na verdade, contra qualquer possibilidade de coexistência. São atores irracionais, que perderam a noção da realidade, uma vez que não há como “destruir” o Estado de Israel e nem tampouco impedir, mesmo que a médio e longo prazo, que um Estado Palestino seja plenamente reconhecido pela comunidade internacional.
No caso desse conflito é muito fácil identificar aqueles que estão agindo sem razão. Erra o governo israelense ao promover a expansão dos assentamentos e tornar a vida dos palestinos um verdadeiro inferno no seu cotidiano. Erram os radicais palestinos ao insistirem numa guerra sem sentido que visa “varrer do mapa” o Estado de Israel e ao tentarem pautar com o medo a vida de muitos israelenses.
O bom senso, infelizmente, anda muito em baixa nas terras compartilhadas por palestinos e israelenses. O caminho do meio, do convívio, da coexistência pacífica, parece que desapareceu. O que sobra de positivo é que apesar de toda a violência que assistimos com muita frequência por meio da mídia, ainda existe uma maioria que deseja a paz. O grande desafio é fazer com que a voz dessa maioria, que está presente nos dois lados, consiga abafar a insanidade dos radicais.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Síria – sem perspectivas de paz
Pio
Penna Filho*
Bashar Assad não
quer mesmo deixar o poder na Síria. Na quarta-feira passada, dia 04, a
“vitória” eleitoral do ditador foi comemorada no país com mortes e muitas
pessoas feridas. Ditadores geralmente perdem o senso de realidade e passam a
viver um mundo à parte, sem se importar com a verdadeira realidade que o cerca.
Esse é justamente o caso de Assad.
A Síria vive anos de um conflito terrível
que já matou milhares de pessoas e promoveu o refúgio de milhões. Todas as
tentativas de solucionar a guerra até agora fracassaram e não existe, pelo
menos por enquanto, nenhuma perspectiva de que a paz finalmente chegue ao país.
É simplesmente impossível realizar
eleições livres e justas num país em guerra. No caso da Síria, mais ainda. Não
existem condições para o debate político e nem tranquilidade para que as
pessoas possam expressar suas opiniões livremente. Além disso, como dito acima,
milhões de sírios se encontram em situação de refúgio em outros países e ficaram
automaticamente alijados do processo eleitoral. Isso, claro, sem contar aqueles
que estão vivendo em áreas nas quais os combates ocorrem quase que diariamente
e todos se preocupam em primeiro lugar em manter a vida.
Quando o governo anuncia que Assad obteve
88,7% dos votos, isso dá muito o que pensar. Aliás, pode-se dizer mesmo que o
governo ainda foi modesto, uma vez que era de se esperar um anúncio típico de
regimes ditatoriais que, desavergonhadamente, costumam anunciar a reeleição com
números sempre superiores a 90% dos votos.
O mínimo que se pode dizer é que o
processo eleitoral na Síria foi uma farsa. O problema, para o governo sírio, é
que dificilmente esse engodo irá convencer alguém além daqueles que querem se
iludir, ou seja, praticamente aqueles de alguma forma beneficiados pelo próprio
governo.
A saída para o conflito na Síria é,
aparentemente, política. Digo aparentemente porque até agora o governo
ditatorial de Assad não conseguiu silenciar os movimentos rebeldes por meio das
armas. A mesma lógica vale para os rebeldes, uma vez que eles estão muito longe
de alcançar o seu objetivo por meio da violência. Isso significa que a
negociação política é um imperativo.
No plano externo o governo Assad tem cada
vez menos aliados. É um governo quase sem legitimidade internacional e que vem
apresentando dificuldades para manter o apoio até agora conquistado.
A farsa eleitoral no país tem tudo para
desacreditar ainda mais o que resta do governo Assad tanto interna quanto
externamente, mas isso não costuma ser um problema para ditadores.
É difícil afirmar categoricamente o que
irá acontecer com a Síria no futuro próximo. A curto prazo talvez o governo
Assad consiga se manter no poder, mas a incerteza é muito grande. Infelizmente,
a única certeza que temos é que a violência e o sofrimento de milhares de
pessoas continuarão até que o ditador seja deposto e as cicatrizes dessa
terrível guerra comecem a cicatrizar, e isso pode levar ainda muito tempo, para
infortúnio de muitos.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
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