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segunda-feira, 24 de junho de 2013
segunda-feira, 3 de junho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
A Internacionalização do conflito na Síria
Pio
Penna Filho*
A internacionalização da guerra civil na
Síria está atingindo um novo patamar. Agora os russos prometem entregar um
sofisticado e poderoso sistema de mísseis para o governo do país e os europeus
acabaram de anunciar o fim do embargo de venda, ou melhor, de transferência de
armas para os rebeldes sírios. No fundo esses países estão alimentando a guerra
civil que está consumindo com o país.
A Síria está sendo destruída por dentro.
Impressiona ver as imagens de sua lenta destruição e atos de extrema barbaridade
pela internet. Basta digitar “guerra na Síria” no site Youtube e pronto, o
expectador terá à sua disposição cenas e mais cenas de horrores e destruição.
Cidades históricas que remontam à
antiguidade vem sofrendo pesados bombardeiros, tanto de disparos de armas
leves, de canhões, de blindados, de aviões e de helicópteros. Prédios, casas,
hospitais, mercados, nada está sendo poupado. Franco atiradores disparam contra
pessoas, bandos de rebeldes disparam seguidamente de alguma esquina e, por
outro lado, tropas do Exército revidam ou atacam com o mesmo furor. Milhares já
morreram e outros tantos agonizam lentamente, junto com o país.
Já não se trata apenas de um conflito
interno. A guerra na Síria está internacionalizada. Ao lado do governo
combatem, pelo que se tem divulgado, militantes do Hizbollah baseado no Líbano
e “instrutores iranianos”. Isso sem contar com o apoio diplomático e material
fornecido pelos russos. Já do lado dos insurgentes, combatem militantes
islâmicos de diversos países, quase todos ligados ao jihadismo. O chamado Exército Livre da Síria também recebe suporte
de governos de outros países que, naturalmente, não assumem sua
ajuda.
Não adianta querer tapar o sol com a
peneira. Por mais que alguns governos ocidentais insistam que não estão apoiando
os rebeldes, isso não parece bater com a realidade. Alguém está ajudando os
rebeldes com dinheiro, armas, munição e logística. Não fosse isso seria
impossível para o Exército Livre da Síria continuar em atividade após três
longos anos de conflito contra um Estado que possui, ou pelo menos possuía, um
Exército relativamente bem estruturado e equipado, sem contar com o seu poder e
supremacia aérea.
Fazer a guerra custa caro. Ninguém,
nenhum grupo ou país que não seja rico e tenha recursos à disposição, tem
condições de manter uma guerra durante muito tempo, ainda mais com as
características da guerra civil na Síria.
O que os estrangeiros estão fazendo é
alimentar a guerra e a destruição na Síria. É verdade que a legitimidade do
regime de Bashar al Assad está comprometida há muito tempo e que dificilmente
ele terá condições de se manter no poder, uma vez que a guerra está abrindo
novas feridas na sociedade síria. Será preciso, portanto, algum arranjo
político para que uma transição ocorra.
Mas os arautos da guerra estão falando
mais alto, na Síria e fora dela. O regime não aceita ceder, entregar o poder e
deixar a sociedade prosseguir. No plano externo, a política de sanções e
pressão foi substituída pela via da violência. O impasse político está promovendo
uma sangria talvez sem precedentes na história da Síria e os tambores da guerra
parecem não se cansar. Pobre povo sírio.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
terça-feira, 28 de maio de 2013
A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica
Pio
Penna Filho*
A Organização do Tratado de Cooperação
Amazônica (OTCA) é um organismo regional voltado para a cooperação entre os
países que compõem a chamada Pan-Amazônia. Da OTCA fazem parte: Bolívia,
Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. O único Estado
presente na Pan-Amazônia que não faz parte da OTCA é a França, haja vista que a
Guiana Francesa, como um dos seus departamentos ultramarinos, a coloca
diretamente na região.
A Organização, criada em 1995, é um
desdobramento do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), que foi assinado pelos
mesmos países em julho de 1978. O objetivo principal da OTCA é justamente o de
tornar operacional o Tratado de Cooperação Amazônia, zelando pela implementação
de suas decisões.
Quando foi criado o TCA, no final da
década de 1970, ainda não havia uma pressão internacional tão grande sobre os
países amazônicos em torno da questão ambiental. Mas o que se percebe é que os
países amazônicos, tendo à frente o Brasil, se anteciparam corretamente ao
institucionalizar o processo de cooperação na vasta área da Bacia Amazônica.
A concepção de uma Pan-Amazônia mais
integrada e conectada, que colocasse os países nela representados atuando
conjuntamente, é anterior à assinatura do TCA. Todavia, esse assunto só
esporadicamente aparecia nos discursos oficiais e muito pouco tinha sido
realizado até então.
Com a ascensão dos militares ao poder no
Brasil em 1964, a Amazônia passou a ser tratada com mais destaque. Com efeito,
havia, como existe até hoje, uma preocupação específica dos militares com a
soberania da região. Aliás, sobretudo no século XX, foram os militares, mais do
que os diplomatas, os que pensaram e colocaram a Amazônia na agenda política
brasileira, tanto interna quanto externamente.
Na perspectiva política dos militares, o
dilema amazônico, na ótica tradicional da segurança, é muito mais internacional
do que regional. Ou seja, não existe receio contra qualquer ação dos vizinhos,
mas sim com a cobiça internacional em torno das riquezas amazônicas.
Ao pensar a Amazônia numa dimensão mais
ampla, não é possível segmentar a Pan-Amazônia de forma a que cada país cuide
apenas do seu território. A área, na verdade, conforma um sistema complexo e
interdependente, daí o pensamento brasileiro ter evoluído para uma apreciação
mais global dos problemas e desafios amazônicos.
E, para tanto, se fazia necessário um
arranjo politico-diplomático que envolvesse os países da região, o que está na
origem da assinatura do Tratado de Cooperação Amazônica.
Do Tratado de Cooperação Amazônica até
chegarmos à criação da OTCA, percorreu-se um longo caminho. À medida que a
questão ambiental se adensava e se tornava, mesmo que gradativamente, um tema
de grande destaque na agenda política internacional, o Brasil, que era e é o
maior interessado nas questões amazônicas, propugnou pela institucionalização
internacional do Tratado, convertendo-o num instrumento jurídico internacional
com a criação da OTCA.
Assim, a ideia básica da OTCA é
estabelecer, em bases permanentes, a cooperação entre os Estados amazônicos com
vistas ao desenvolvimento sustentável da região, ao mesmo tempo em que persegue
objetivos políticos que visam fortalecer os laços que envolvem os países que
compõem a Pan-Amazônia e garantir-lhes a soberania sobre os seus respectivos
territórios nacionais.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
Diplomacia (II)
Pio
Penna Filho*
Como analisado no artigo da semana
anterior, a diplomacia é uma prática que remonta à antiguidade, derivada
principalmente da necessidade política e econômica dos Estados em manterem contatos com outros
Estados. Tal prática, ou arte da negociação, evoluiu muito ao longo da
história.
Durante muito tempo, no relacionamento
entre os Estados, prevaleceram as chamadas relações bilaterais, ou seja, de
Estado a Estado. Embora esta seja ainda uma característica forte do sistema
internacional, assistimos a partir do século XX o aumento considerável da
diplomacia multilateral, favorecida enormemente pelo surgimento de organizações
multilaterais permanentes, seja no plano global, seja no regional.
No plano global duas instituições
multilaterais ganharam destaque no século passado, ambas surgidas em épocas de
guerras globais. A primeira foi a Liga das Nações, criada em 1919, na sequência
da Primeira Guerra Mundial, ou Grande Guerra, como foi denominada pelos seus
contemporâneos. A segunda instituição é a Organização das Nações Unidas (ONU),
criada em 1945, no contexto da Segunda Guerra Mundial. A ONU surge como
sucessora da Liga e tem basicamente os mesmos objetivos, ou seja, a promoção da
paz e da segurança internacional.
No plano regional verificou-se algo
semelhante ao global, com o surgimento de diversas organizações internacionais
de caráter mais local, que forçaram os Estados a aumentarem o grau de interação
política e estimularam a diplomacia multilateral. Veja-se os casos, por
exemplo, da Organização dos Estados Americanos (OEA), União de Nações
Sul-Americanas (UNASUL), União Europeia (UE), União Africana (UA), dentre
vários outros.
Outro aspecto importante e muito marcante
ocorrido no século XX foi o surgimento de vários novos países, sobretudo na
época da descolonização da Ásia e da África, logo após a Segunda Guerra
Mundial. Assim, o sistema internacional se tornou muito mais complexo e
diverso, reforçando a necessidade de uma diplomacia bem mais ativa.
Em tempos mais recentes a prática
diplomática foi também influenciada e afetada pela disponibilidade de novos
recursos tecnológicos, principalmente aqueles derivados dos avanços nos
transportes, nas comunicações e na eletrônica. Contrapondo a nova realidade com
os períodos históricos anteriores, vivemos um período de uma nova diplomacia,
muito mais intensa e ágil.
Um exemplo concreto é a participação cada
vez mais ativa de dirigentes máximos de um Estado (presidentes, por exemplo) na
condução direta da diplomacia, o que levou ao que chamamos hoje de “diplomacia
presidencial”. No caso do Brasil, os presidentes Fernando Henrique Cardoso e
Lula da Silva foram os mais ativos em termos de atuação diplomática diretamente
conduzidas por chefes do Estado. Mas há outros exemplos, como os dos
ex-presidentes norte-americanos Jimmy Carter e Bill Clinton.
À guisa de conclusão podemos dizer que
nenhum país pode abrir mão da diplomacia. São os diplomatas os responsáveis por
representar os seus países no exterior e promover a aproximação entre governos
e sociedades. Quanto mais ativa uma diplomacia, tanto
melhor para o país e para a harmonia entre os Estados.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Diplomacia (I)
Pio
Penna Filho*
Diplomacia é a gestão das relações
internacionais por negociações, o método pelo qual essas relações são ajustadas
e conduzidas por representantes do Estado, ou seja, embaixadores e enviados que
representam um país no exterior. É, ao pé da letra, a função ou a arte do
diplomata.
Para o Brasil, a diplomacia é um precioso
instrumento do Estado que ajuda a projetar sua imagem no exterior e tem
auxiliado, e muito, em seu processo de desenvolvimento. Existem inúmeros exemplos
da diplomacia brasileira atuando como vetor do nosso desenvolvimento.
A prática diplomática é muito antiga.
Desde a formação dos primeiros sistemas de Estados na antiguidade, temos
exemplos da diplomacia em atividade. Aliás, já foi dito que os primeiros
diplomatas foram os anjos, ou seja, os enviados divinos para ligarem os humanos
a Deus.
À parte essa retórica mais
espiritualista, os Impérios, Reinos e Estados antigos se relacionavam por meio
dos primeiros diplomatas, que geralmente eram emissários encarregados de
transmitirem informações entre os soberanos.
A atividade diplomática foi se
aperfeiçoando gradativamente. Quanto mais bem estabelecido, seja um Reino ou
Império, maior a necessidade da diplomacia para os contatos políticos e as negociações
comerciais entre as unidades políticas estabelecidas.
Em alguns lugares a diplomacia foi mais
intensa, como na relação entre as cidades-estados gregas. Em outros, apesar de
existir, a preferência recaía no oposto da diplomacia, ou seja, no emprego da
violência e na intimidação como forma de relacionamento e imposição de
determinado ponto de vista. Esse foi o caso, em muitas circunstâncias e em
vários momentos históricos, da atuação dos romanos.
O grande avanço na diplomacia ocorreu
durante o renascimento italiano, quando as principais cidades-estados da
península italiana (Gênova, Florença, Milão e Veneza) passaram a manter
embaixadores permanentes umas junto às outras. Daí em diante essa prática foi
se disseminando paulatinamente para outros Estados europeus.
Em 1648, com o Congresso de Vestfália,
temos um novo avanço da diplomacia. O Congresso se reuniu na sequência da
desgastante “Guerra dos Trinta Anos”, que colocou em lados opostos vários
Estados europeus. Pode-se dizer que as negociações ocorridas durante o
Congresso levaram, mais tarde, ao exercício da diplomacia multilateral, ou
seja, a um tipo de diplomacia que envolve simultaneamente vários Estados.
No século XIX temos uma nova mudança
marcante. De novo, foi uma guerra que fomentou a renovação das práticas
diplomáticas. Nesse caso, a expansão napoleônica promoveu uma desordem tal na
velha Europa que um novo Congresso foi convocado. Trata-se do Congresso de
Viena, de 1815, que consolidou o chamado sistema internacional europeu, que com
o tempo disseminou novas práticas diplomáticas para
outras partes do mundo.
Já no século XX duas convenções marcaram
a diplomacia mundial. Em 1961, a Convenção de Viena sobre Relações Diplomática
e a Convenção de Viena sobre Relações Consulares resultaram na consolidação da
diplomacia em escala global, determinando protocolos e práticas reconhecidas
por quase todos os Estados.
* Professor do Instituto de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB) e Pesquisador do CNPq. E-mail: piopenna@gmail.com
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